terça-feira, 23 de julho de 2013

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Colisão ou Coalizão

Parece que tudo está fora de órbita em São Paulo, alguma conjunção desastrosa botou numa quadratura, sem portas de emergência, elementos com alto poder de colisão. Dias seguidos de protestos, cenas incontáveis de violência, milhares de reais em prejuízo e a evidência de duas forças cegas: uma confusa e a outra orientada por apenas um tom, calar o protesto. O movimento Passe Livre formado por estudantes, cidadãos e incitado possivelmente por alguns partidos de esquerda, começou a protestar contra o aumento das tarifas do transporte público e foi ganhando força nos dias que se seguiram. Seria mais razoável acreditar que o protesto tem outros motivos, não só contestar o aumento das tarifas, afinal, há neste país tanta degradação pior que este reajuste que tudo seria facilmente justificado. O protesto, na medida que crescia, passou a ganhar rótulos de inadequado, desmedido e abusivo, e, os protestantes, honrarias de baderneiros e criminosos. Infelizmente, o rastro de cacos e desordem endossaram essa tese. Se nós tivéssemos (inclusive eu) o hábito e o espírito aguerrido e consciente, se fosse do nosso feitio ir às ruas protestar contra, como exemplo: os bandidos que ocupam o palácio do planalto, as assembleias legislativas, as câmaras todas e todos os corruptos vestidos de terno e gravata que, aliás, logo votarão a favor da PEC 37 (que na minha singela opinião, é muito mais grave do que o foco dos protestos do MPL), seria muito natural apoiar um protesto como este. Porém, desde o impeachment do presidente Collor nós preferimos bravejar do sofá, de preferência, aquele que fica em frente ao aparelho de TV para estimular a circulação no lobo frontal. Agora, com as telas móveis nem precisamos dos sofás, a não ser que estejamos muito fatigados dos afazeres civis. As primeiras notícias sobre os protestos logo estimularam o ambiente para especulações que vieram a seguir, claro. Se o movimento saiu às ruas para protestar contra o aumento das tarifas e muito mais, porque os brados e cartazes não incluíram o muito e o mais. Não sei se faria diferença, mas talvez o movimento tivesse juntado outras forças e o apoio de uma parcela maior da população. Talvez a única diferença estaria no fato de que o movimento teria objetivos claros e coerentes com o vigor dos protestos e não obscuros ou desmedidos como especulamos. A transparência talvez provesse `a imprensa menos estímulos para fábulas equivocadas e distorções e, possivelmente, daria menos audiência e lucro aos telejornais. Depois dos protestos as pessoas começaram a comentar nas redes sociais, nos cafés, nos bares, nos táxis e, claro, em frente à TV, que o protesto não poderia ser apenas contra o aumento das tarifas. Alguma organização muito mais poderosa que um grupo de estudantes estaria por trás de tudo, recrutando ativistas e orientando as ações, os saques e a depredação generalizada. Talvez o PCC tivesse infiltrado “agentes” para aproveitar o tumulto para saquear e promover uma onda de temor entre os paulistanos. Sem julgar a razão, o fato é que os protestos renderam muitos danos em estações de metrô, agências, ônibus, narizes e câmeras, e mesmo com tantas câmeras registrando tudo, como nomear no meio desse caos os agressores, os heróis, os criminosos e os inocentes espectadores? Agora parece tarde para esclarecer e desmentir as imagens, pois neste tempo tecnológico, as opiniões são formadas num instante, ou melhor, no instante em que a primeira notícia (real ou manipulada) chega, via Mobile, ao espectador. Será que faltou aos jovens estudantes, ou às supostas organizações, formular um release mais fiel aos sentimentos que, em verdade, nós temos? Será que os protestos começaram contra os reajustes das tarifas e depois de pisarem nas ruas os protestantes se lembraram que o país apodrece de dentro para fora, há séculos, e que, portanto, os protestos só poderiam ganhar essa proporção? A polícia é um aparelho de repressão e tem know-how nesse segmento da economia. Sim, porque tudo no final acaba no âmbito econômico. Portanto, a polícia não poderia agir diferente, principalmente porque há em boa parte dos indivíduos ali fardados a herança de centenas de anos de exploração, humilhação e manipulação do espírito, tal como no bandido e no excluído que tomavam o ônibus (agora carbonizado) para chegar em casa, muito além dos bairros dos seres visíveis. Ou alguém de classe média sonha em ser policial militar? O policial sozinho é outro brasileiro ressentido e no seu DNA está armazenado o saldo negativo, as marcas de quem foi esquecido e o desgosto de ter como pátria, não a mãe, mas a prostituta aberta a qualquer tipo de negócio, preferencialmente, o mais lucroso. Juntos, os policiais são uma força homogênea de obediência e rancor a serviço da ordem que, em tese, todos esperamos. Provavelmente ainda nos faltem know-how e o hábito do protesto, da participação e da responsabilidade, assim como ainda nos falta a honestidade para pagar o ingresso pelo valor inteiro e para recusar o fluxo de propinas abundante nos gabinetes e nas delegacias, independente dos valores. Pelo menos, a coragem para sair às ruas já não nos falta mais.

terça-feira, 26 de março de 2013

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Species Anonymous | Natureza, fantasia e traição

“Motim! Motim!”, gritavam os tripulantes – relatou o capitão Constantino Largos, meses antes do enforcamento do oficial Rocco Xavier Sala. Os documentos de bordo ainda borrados, catados no olho daquela lufada que quase virou a nau em Noronha, estavam assinados pelo carismático comandante. Largos reportava ao conde de Arqueja sua suspeita de que uma facção liderada pelo seu braço direito pretendia tomar a nau “Príncipe de Lucídio”. Mas um relato intrigante de um tenente da marinha britânica descrevia ao seu superior uma outra face da crise: “O oficial Sala discordava do comando letárgico e das escolhas inconscientes do comandante Largos. O atrito se estendeu à autoria dos desenhos produzidos durante a expedição quando o material desapareceu por dias. Quando foram encontrados, na escrivaninha da cabine do comandante, os desenhos estavam assinados com um único nome, o do austríaco Johann Von Gyenge”. O oficial e naturalista Rocco Sala era uma amante da arte e da ciência e um desenhista amador. Ele passou a produzir desenhos e pinturas quando o artista da expedição, Johann V. Gyenge contraiu malária e faleceu três dias depois de chegarem à capitânia do Grão Pará. Sala foi autor de sessenta por cento das aquarelas e desenhos produzidos durante toda a expedição, mas sabia que o comandante Largos estava incomodado com a sua esmerada participação. Para preservar os desenhos originais e asseverar a autoria dos seus desenhos, Sala fez cópias fotogênicas dos seus originais, usando sais de prata e papéis sensíveis à luz. Depois ele os expôs ao sol dos trópicos e os enviou, em segredo, à sua esposa em Coimbra. As cópias foram entregues ao amigo holandês, o comandante Fernand Willekens, que se incumbiu da missão. Os dois encontraram-se quando os navios atracaram em Salvador para reabastecer. Naquele dia Sala dissera ao amigo que temia uma conspiração, mas, paradoxalmente, parecia acreditar na amizade franca que mantinha há anos com o comandante Largos. Um suboficial anônimo, tripulante da esquadra que escoltou a expedição “Teatro das Coisas Naturais e Fantasiosas do Brasil", escreveu em seu diário: “O comandante Largos confiou, sem cerimônias nem trocas, a divisão do comando ao oficial Rocco Sala, mas parece estar mais preocupado em dar seus tragos e planejar o enforcamento do oficial Sala do que em chegar à maldita colônia escaldante e dela tirar algum proveito”. Em carta à esposa, Ana Luiza Amarão, o oficial Sala descreve os embates inúteis que travou com o comandante: “Nossas conversas mais desgastam e incitam a sua teimosia em se abster das responsabilidades no tempo que elas o exigem do que aprimoram nossas ações colaborativas”. O oficial dizia-se contra o método perdulário de documentar as espécies como anônimas e de avaliá-las superficialmente. “Para mim isso é destituir o indivíduo de sua individualidade, é ocultar a essência da criatura e diminuir parvamente as nossas hipóteses de êxito. Sobremaneira, porque desprezamos a sapiência das gentes da terra brasilis”, dissera ele esbravejando, e continuara: “Estamos provocando a ira do nosso Deus, mas esqueceste comandante, de que temos de atravessar o Atlântico pra acalmar em regresso”. O oficial Rocco Xavier Sala foi enforcado num entardecer, um mês depois de deixarem Salvador. Ele foi subjugado, surrado e, depois de os marujos atiçarem os tubarões com o seu sangue misturado aos restos de peixes podres – acumulados para a ocasião –, seu corpo foi jogado ao mar sem a indumentária de oficial. Segundo Sala, o homem do novo século necessitava criar meios de dimensionar suas realidades e aprimorar suas capacidades de estimar os danos à natureza para prevenir a degradação inerente ao processo exploratório. Os desenhos originais foram encontrados na Biblioteca de Warszawa e restaurados quase quatro séculos depois. A autoria dos desenhos só foi reconhecida duas décadas mais tarde, quando os historiadores encontraram as fotocópias de Sala e as cartas enviadas à esposa. O comandante Largos está a boiar em sua fábula, à deriva e sem trucos.

terça-feira, 13 de março de 2012

sábado, 11 de fevereiro de 2012

"Triste Congo" 2.0

Aquele não era mais o seu Congo, nem estes são os seus adornos de filhos de rei, como não são preciosas estas joias de falsos negros lúcidos e de vermelhos transparentes demais. Elas podem ser compradas com as gomas de mascar todas-as-frutas, em surpresas anexadas. O maior espetáculo não está nas tuas minas que ainda descarnam pares como estes desiguais, nem nos pobres paquidermes ensinados deste circo sem diversão, nem nas crianças que brincavam entre os riscos e livres estilhaços que cintilavam em explosões atrasadas de um velho ódio inexplicável, mas nos precoces desafortunados de outras minas do Congo, que mesmo encontrando todas as riquezas daquelas terras escondidas, serão apenas os esquecidos na cadeia tecnológica. Aplausos para o design, para a mais-valia, para o horror e para o avanço tecnológico.

Alexandre Casagrande

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012